16 de fevereiro de 2010

Manuel António Pedro (1925-2010)

A igreja é afinal muito pequena. Tem qualquer coisa de limpo e singelo.
As pessoas entram e cumprimentam-me. Dão-me os pêsames e eu não as conheço. Nunca as conheci e nem precisava efectivamente dos seus pêsames.
Dantes brincávamos no adro. Eu e a Lúcia. Brigávamos muito e a avó dela dizia-nos para fazermos as pazes, conceito para mim complexo, pois não se traduzia em nada de material. Mas isso era no quintal da avó dela e não no adro da igreja, onde crescem laranjeiras. A palmeira era então pequena. Agora está tão alta! Brincávamos no adro, ou junto à sacristia. Mas nunca fui de frequentar a igreja; os meus pais deram-me uma educação laica, com certeza em resultado do catequismo marxista-leninista pós-25 de Abril. Na casa da avó houve, durante longos anos, um calendário do Vasco Gonçalves.
A casa agora está vazia. Já não há porcos pendurados no chambaril, ao lado da larga mesa da cozinha. Defuntos familiares: ainda hoje o sabor das febras grelhadas na brasa e regadas com sumo de limão. Uma arca onde se salgava. A carne da conserva: bocados de lombo e entrecosto, temperados com pimentão, fritos e mergulhados em banha alaranjada coagulada (a "manteiga corada").
Onde esse tempo?
O meu avô jogava às cartas comigo. No inverno, quando a minha mãe me deixava lá, fazia torradas ao lume para mim. Chamava-me "minha neta". O meu avô tinha olhos mansos e dizem que mau feitio, por causa da política, mas não sei disso. Quando entalei o pé na motorizada do meu pai, ao pé da cooperativa, chorei muito. E o meu avô ficou comigo a consolar-me, porque eu só queria ser consolada por ele.
À igreja só chegam velhos. Mesmo os novos deixei de conhecer. E mesmo os novos estão velhos. Têm filhos. Trabalham no campo. Não estudaram. Vêem-se primos, tios, gente de longa data.
O cortejo segue. As pessoas acumulam-se no adro. Continuam a vir ao meu encontro e não as quero. Não quero a sua sabuja intimidade forçada, de quem acha que me viu crescer e que por isso, me pode chamar "Mena".
Dantes o cemitério ficava tão longe. Afinal são cinco minutos em passo não muito apressado. Chuvisca. Passamos pela Praça e pelas suas casas de lavradores. Dantes, numa delas, imaginava festas do século XVIII, bailes e vestidos. E não sei onde ia buscar estas coisas. Ex-posto da GNR, padaria, Bairro do Carneiro e dentro em pouco chega-se ao cemitério.
Ia lá com a minha bisavó Sabina, visitar a campa do meu bisavô e também do tio morto num dia de Natal. Até o cemitério agora é tão pequeno e não há ensejo para visitar todos esses mortos doutrora, cujas narrativas achava tão curiosas, como a da menina que não sobreviveu porque tinha os intestinos ao contrário.
Desfaz-se o cortejo; regressa-se aos carros num estremunhamento. Para nós, a vida continuou.

3 comentários:

Anónimo disse...

A vida continua sempre mas nunca será como era dantes!Às vezes esquecemo-nos das pessoas que já partiram mas há certos dias em que nos dá um nó no estomâgo que nos diz que outros desaparecimentos se seguirão.
Gostei muito do teu texto, aliás, gosto sempre muito das tuas recordações.

Beijinhos, Ana

Filomena disse...

Como alguém já me disse acerca do Lobo Antunes "é um chato obcecado com a infância". Vou pelo mesmo caminho :)

duarte disse...

Triste e lindo ao mesmo tempo, profundo, lúcido, cinematográfico, etnográfico, o portugal verdadeiro.