20 de Fevereiro de 2012

O luxo do lavabo público

Ao longo da minha vida, tenho visitado incontáveis casas-de-banho públicas de estações de serviço, centros comerciais, escolas e edifícios públicos.
Com portas mais ou menos gatafunhadas (números de telefone com promessas eróticas, manifestos políticos, máximas da sabedoria popular), com trincos mais ou menos fiáveis, mais ou menos exíguas, providas ou não de papel higiénico, em todas tenho entrado, sem medo, buscando nelas provas empíricas da escatológica identidade portuguesa. Sobretudo da feminina, entenda-se, pois não cultivo o hábito de frequentar os lavabos masculinos.
Embora nestes meus périplos tenha entrado em recantos asseados, o mais das vezes é possível encontrar antros nojentos, onde uma rapariga, à falta de opção, é forçada a fazer as necessidades. Entre esses, causa-me especial repulsa (e espanto) aqueles que ficaram todos sujos após a utilização de uma senhora, cuja conduta foi pautada pela melhor observância das normas de higiene. Tal senhora, temendo contrair um qualquer vírus, apanhar uma qualquer bactéria, ou ser atacada por uma qualquer bicheza alojada na cerâmica sanitária, preferiu- e muito bem! - mijar em pé. Assim, não tocou na sanita. Assim, conseguiu a magnífica proeza de marcar o seu território. A sanita ficou suja? Qual é o mal? Afinal estava cheia de bicharada! E depois há alguém que limpe, não há? Limpar, bem basta as de sua casa!

16 de Outubro de 2011

Não, não precisamos de um Salazar

 

Em 1759, Voltaire publicou a sua opus magna Candide, ou O Optimismo. Voltaire ficara impressionado com o terramoto que destruíra, quatro anos antes, a cidade de Lisboa e que demonstrava, com clareza, que nem tudo é pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. Numa população crente e devota, como era a portuguesa do século XVIII, um terramoto seguido de tsunami no Dia de Todos os Santos, quando as igrejas estava apinhadas de gente, só poderia parecer castigo divino. E Deus, como se sabia, era bom. Portanto, havendo um terramoto e sendo Deus bom, isso só poderia ser justificado porque tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.

Este tipo de raciocínio é parecido com aquele que nos vem sendo apresentado desde que o Triunvirato (a gente imagina Romanos de sandálias a entrar na cidade, tirando os elmos emplumados, preparando-se para governar, soltando epigramas latinos a cada abertura da boca) aterrou em Lisboa (infelizmente não chegaram numa quadriga). É preciso austeridade, porque a austeridade vai-nos salvar a todos e ao capitalismo, porque o capitalismo é o melhor dos mundos possíveis.

Em 1989, assim parecia. O Bloco Soviético caía. A gente do leste descobria o que era a democracia, a coca-cola e um Big Mac.O Ocidente exultava. Estava maior; queria expandir-se mais. Expandia-se, inclusivamente, para a terra remota de Portugal, norte de África em solo europeu, com gente dada a fatalismos, tristezas, crises.

Mas em 1989, a crise portuguesa não sangrava. Recebera muitos muitos muitos muitos dinheiros europeus, que foram como um penso rápido no dói-dói. A gente rapidamente se esqueceu que era pobre. Agora estava rica, rica. E esse era o melhor dos mundos possíveis. Os bancos emprestavam e a gente comprava carros e ia de férias à República Dominicana. O capitalismo era mesmo o melhor dos mundos possíveis.

Foi assim até há uns meses. Depois chegou a crise. A gente não sabe bem porquê. Mas tínhamos algumas saudades, admitimos. Dizem que a crise foi feita pelo sistema financeiro. O mesmo que nos emprestou dinheiro e fez de nós ricos-pobres. Dizem que para ultrapassar a crise é preciso pagar mais impostos, trabalhar mais, deixar de ter férias, deixar de ter Natal, passar mais frio no Inverno. Mas essas coisas são precisas, porque tudo é pelo melhor no melhor dos mundos possíveis, que é este: democrático e liberal.

Tal como o herói de Voltaire, há um dia em que o Cândido Povinho percebe que nem tudo é pelo melhor no melhor dos mundos possíveis.

Resta saber se é capaz de fazer o seu jardim crescer, ou se prefere entregar - como antes - essa tarefa a alguém, demitindo-se de si mesmo.

Não, não precisamos de um Salazar.